Ah! Que me desculpem o azedume, mas hoje eu digo que tanto faz se o café está quente ou frio. Tanto faz o tempo que passa sem ser vivido. Tanto faz as várias cores que enfeitam esses dias que, a meu ver, parecem cinzas. Todas essas cores que passam despercebidas, tanto faz...
Se a luz acabar, se a canção desafinar, se o céu desabar, se a bolsa estourar, se a comida esfriar, se o Deus se atrasar, se a casa queimar, se o bonito enfear, se a voz calar, se o tempo parar... Nada, nada disso me importará!
Pode pegar o ônibus agora, vai criança (e você nem sabe que vai morrer)
Pode comer; vai, mata essa tua fome desvairada que é pura ambição (e você nem sabe que vai morrer)
Pode se vingar; vai, exemplo de justiça (e você nem sabe que desde há tempos está morto).
e você nem sabe que desde há tempos está morto... Vá procurar uma cova, uma soda pra dar fim a essa tua cara que derrete dia após dia, deixando à vista teu vulto negro de inveja, mentira. exalando esse cheiro pútrido dos teus ossos, da tua carne artificial...
Saibam: nada disso me importará hoje.
De nada me vale a vida, de nada me vale a morte. E se parece bobagem, que o seja: é que hoje eu não tô com vontade da vida, visse. Hoje eu não tô para movimentos bruscos nem para barulheira à toa.
Tanto faz o sono, se ele vier; tanto faz a minha vontade de ser e de expressar, de sentir...
Verdade
Mentira
também isso de nada me adianta
O gás vazando, o primeiro colocado no momento do tombo, o erro que acabou dando certo, a vida que causou tantas mortes, a morte que venha... a morte que se dane...
Eu não me importo.
Deixa pra lá a cultura que nos levaram, o dinheiro que é roubado, a corrupção que é conservada, o cinema de mentira, a educação de mentira, a música de mentira, o sistema que é a ordem e o progresso... Ah! minhas estimadas pessoas, meus irmãos e minhas irmãs, meus companheiros: eis-me: massa irrequieta, tomada de loucura, amor, ódio, individualismo, desejo, insatisfação; eis-me: cansada de tanta injustiça, de tantos sonhos que vejo perdidos pelo meu caminho, de todos amores artificiais que são estupidamente cultivados aos montes e que não valem mais que alguns ‘cents’; eis-me: com minhas idéias, meus sonhos, minha esperança, meus pés frios no chão; eis-me: com o controle remoto nas mãos, assistindo às desgraças, rindo da hipocrisia, lamentando a falta de dinheiro, a falta de tempo, a falta de beleza.
Eis-me, pessoa simples que assim como você, meu(minha) caro(a), permaneço esperando, torcendo para que haja vida em outro planeta qualquer, e que este seja menos moderno e menos humano, para que lá eu possa (re)começar; para que lá eu possa me refugiar e (re)aprender a viver!
[16/03/08]