segunda-feira, 17 de novembro de 2008


“No mundo realmente reinvertido, o verdadeiro é um momento do falso.”

Guy Debord



Desert Of The Real

“Você deseja saber o que é a Matrix? A Matrix está em todo lugar. À nossa volta... Você pode vê-la quando olha pela janela ou quando liga sua televisão. Você a sente quando vai para o trabalho... Quando vai à igreja... Quando paga seus impostos. É o mundo que foi colocado diante dos seus olhos para que você não visse a verdade. Você é um escravo. Como todo mundo, você nasceu num cativeiro... Nasceu numa prisão que não consegue sentir ou tocar. Uma prisão para sua mente. Infelizmente, é impossível dizer o que é a Matrix. Você tem de ver por si mesmo”.

“O que é Matrix? Matrix é controle. Uma simulação feita pelas máquinas para transformar toda a humanidade nisto aqui”.

"Sei que você está aí.
Eu sinto você agora.
Sei que está com medo.
Está com medo de nós.
Está com medo das mudanças.
Eu não conheço o futuro.
Eu não vim aqui te dizer
como isso vai acabar.
Eu vim aqui te dizer
como vai começar.
Vou desligar este telefone.
E vou mostrar a essas pessoas
o que não quer que elas vejam.
Vou mostrar a elas um mundo...
sem você.
Um mundo sem regras e controle,
sem limites e fronteiras.
Um mundo onde tudo é possível.
Para onde vamos daqui...
é uma escolha que deixo pra você”.


terça-feira, 23 de setembro de 2008

(...)
Ah, deuses, muitas coisas me agitam agora!... Tenho novamente a sensação de que vou explodir, tamanha é a agonia em que me encontro.
Em meu coração, tantas pombas e pássarosindefinidos voejam, batem as asas umas contra as outras, reproduzindo sons que não sei dizer se orquestra ou pura tempestade. Em minh’alma mora um espírito velho; corre também uma menina louca; dança-me uma mulher já muito bem feita, nada satisfeita com a boa vida que Deus lhe deu... cantam em mim todos os mendigos, excepcionalmente em noites frias; cantam, ainda, todos os pobres de espírito.

(...) Tentam traduzir-me o louco, o palhaço, a morte e o Deus...
O louco, ah, bem que tentou, pobre! Mas sumiu... abstraiu-se! Ou sabe-se lá que diabos houve com o homem. Soube apenas que ele andou muito cismado com o fato d’eu me tachar por louca. Nalguns devaneios, descobriu que ao tentar compreender minha loucura, quase alcançou a lucidez; capaz que por medo de alcançá-la, evadiu-se!

O palhaço foi homem muito corajoso, verdade . Problema foi que o fulano, ao se aproximar d’mim, em mau momento, diga-se de passagem, surpreendeu-se ao reconhecer as feras que trago cá trancafiadas... Tentou fazer brotar-me um sorriso no rosto, o que pr’um homem como tal até foi muito, e reconheço o seu esforço. Mas há de compreender, Sr. Palhaço(se é que já não o compreendeu , por contra-gosto) que essa tristeza qual carrego n’alma é muita visse?! Ai, são dores tamanhas essas que me sufocam e apertam o coração...


A Morte, já amiga de longa data (?), chegou-se como quem é de casa. Cá estou eu, e já sinto tantos negros anjos a voejarem-me, e no mesmo tempo, um vazio indizível, que imagino ser a hora de se me levarem, dona Morte. Veja bem: quê mais posso eu fazer? Eu nem sementes tenho para deixar; que me perdoem os meus familiares e amigos, amo-lhes tanto.............. mas tratemos logo de dar fim a isso, dona Morte, vamos embora desse mundo louco! Valei-me pai e mãe, eu só não contava com a sensibilidade da Morte, que se recusa a levar-me. Diz ela que prefere conter-se e fitar meus olhos, quais, diz, “refletem-na”...


E o Deus é o único qual eu não esperava grande s feitos. O Deus não me vem. Não vem porque desistiu...e estamos acertados, eu o perdôo por isso, apenas desconfio que ele não me perdoe, e invejo-o por ser tão justo. Ah pai, estás muito certo. Ainda assim peço que me perdoe os modos tão crus; mas é estranho sentir-se tão incômodo consigo? Sou impossível e não me suporto; quê é que se faz?

Deus, fazei com que a música atravesse essa alma em tensão como a luz do sol o faz; pede que saiam todas as criaturas, palavras, sons, figuras que se me fazem moradia; o que desejo agora é si lên c i o...
Fazei com que os surdos compreendam-me as expressões.
Fazei com que os mudos colem-se às cores de meus cabelos, de meus olhos, de minha pele e minhas idéiascarmesin, e através delas possam expor suas necessidades...
Fazei com que os cegos ouçam-me, orquestra, revoada de pássaros, silêncio, apocalipse... fazei com que estes sintam-se a vontade pai, pois inimigos eu tenho por demais... e ai meudeus, se não for pedir muito, dai jeito nessa criatura que sou; peço que regresses a mim e largo-me, então; dê cá um jeitinho, que eu não agüento, eu não me agüento mais...

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

In luto for Sir. Rick, a icon, a star...



"And with these words I can see
Clear through the clouds that covered me
Just give it time then speak my name
Now we can hear ourselves again..."
[ Rick Wright - "Wearing the inside out" ]

sábado, 13 de setembro de 2008

(...) Surpreendo-me com tamanha teimosia! Teimosia, sim, dessa mão que insiste em escrever. E como escrevo por pura teimosia –ou sabe-se lá quê-, rabisco aqui minhas tortas palavras, como quem sangra, como quem chora, ri, ou lamenta com alguma ironia, alegria ou maldade qualquer; só assim é que sei escrever.
E por mais rabiscos que venham, sinto algo a me apertar. Lamento, sim, essa amargura que me consome. Sinto-me como a pluma que pesa sobre todos nós, humanos demais; humanos demais! (?)
Ah! Fadigamo-nos tão rapidamente; estamos exauridos pela vida que rompe, pelo tempo que corre e, certamente, perdemo-nos... Quê há com essa gente que parece já não querer viver?

(...) Sinto,
Sou um menino de olhos arregalados, com as mãos e o nariz encostados a uma grande vitrina fria, e uma tempestade flui lá fora; outra cá em mim. Mina sina é desejar sempre aquilo que não se pode tocar, ou que simplesmente não pode ser alcançado. Estou perdido. Absolutamente perdido e, para total surpresa, saibam-me: despreocupado! Não há o que me complete neste mundo, sou uma criatura sem par, e de nada me vale ser assim tão faminto da vida. No entanto, seria inútil estancar...
Sou por demais selvagem, louco e impulsivo para aceitar-me estancado.
O que sou é tão (in)descritível como (in)tocável. Pedras, pérolas, diamantes... nada há de mais concreto que minh’alma. Incansável, vôo entre os infernos; os céus eu crio; e as selvas são meus jardins. E quando calma, sou César, ainda que nada mais eu tenha de meu, senão essa sede sem fim.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

O sentimento do irreparável gelou-me de novo. E eu compreendi que não podia suportar a idéia de nunca mais escutar esse riso. Ele era para mim como uma fonte no deserto.

- Meu bem, eu quero ainda escutar o teu riso...

Mas ele me disse:

- Faz um ano esta noite. Minha estrela se achará justamente em cima do lugar onde eu caí o ano passado...

- Meu bem, não será um sonho mau essa história d serpente, de encontro marcado, de estrela?

Mas não respondeu à minha pergunta. E disse:

- O que é importante, a gente não vê...

- A gente não vê...

- Será como a flor. Se tu amas uma flor que se acha numa estrela, é doce, de noite, olhar o céu. Todas as estrelas estão floridas.

- Todas as estrelas estão floridas.

- Será como a água. Aquela que me deste parecia música, por causa da roldana e da corda... Lembras-te como era boa?

- Lembro-me...

- Tu olharás, de noite, as estrelas. Onde eu moro é muito pequeno, para que eu possa te mostrar onde se encontra a minha. É melhor assim, Minha estrela será então qualquer das estrelas. Gostarás de olhar todas elas... Serão, todas, tuas amigas. E depois, eu vou fazer-te um presente...

Ele riu outra vez.

- Ah! meu pedacinho de gente, meu amor, como eu gosto de ouvir esse riso!

- Pois é ele o meu presente... será como a água...

- Que queres dizer?

- As pessoas têm estrelas que não são as mesmas. para uns, que viajam, as estrelas são guias. Para outros, elas não passam de pequenas luzes. Para outros, os sábios, são problemas. Para o meu negociante, eram ouro. mas todas essas estrelas se calam. Tu, porém, terás estrelas como ninguém...

- Que queres dizer?

- Quando olhares o céu de noite, porque habitarei uma delas, porque numa delas estarei rindo, então será como se todas as estrelas te rissem! E tu terás estrelas que sabem rir!

E ele riu mais uma vez.

- E quando te houveres consolado (a gente sempre se consola), tu te sentirás contente por me teres conhecido. Tu serás sempre meu amigo. Terás vontade de rir comigo. E abrirás às vezes a janela à toa, por gosto... E teus amigos ficarão espantados de ouvir-te rir olhando o céu. Tu explicarás então: "Sim, as estrelas, elas sempre me fazem rir!" E eles te julgarão maluco. Será uma peça que te prego...

E riu de novo.

- Será como se eu te houvesse dado, em vez de estrelas, montões de guizos que riem...

terça-feira, 29 de julho de 2008

"Tão longa a jornada,
E a gente cai, de repente,
No abismo do nada."


[Helena Kolody]

sábado, 26 de julho de 2008

O preço da carne

Dagomir Marquezi

Chineses costumam encarar qualquer coisa que se mova como um alimento à sua disposição. Eles consideram o animal um mecanismo, um objeto, cuja dor e sofrimento não nos dizem respeito. Ironicamente, os piores exemplos de maus tratos acontecem na mesma Ásia onde nasceu o budismo – a mais benevolente e avançada religião do mundo no trato com os animais.

Nos tristemente famosos "mercados de vida selvagem" asiáticos há de tudo. Mamíferos, répteis, insetos, batráquios, tudo vai para gaiolas apertadas e lotadas sem água nem comida. Qualquer foto desses mercados é um permanente festival de sangue, urina e fezes. Há mais do que cheiro ruim no ar: existe medo. E vírus de diferentes espécies novas se combinando uns com os outros.

As imagens mais chocantes registram o que esses mercados destinam aos cães. Os mesmos cães que aqui viram membros da família, ajudam cegos ou orientam equipes de salvamento. Lá, cachorros são comida. E não se deixe enganar: esses mercados chineses não existem para "matar a fome do povo". Chineses pobres comem frango e peixe. Os cães são "iguarias" caras, assim como gatos, escorpiões, cobras, enguias etc.

Eu tive a chance de ver fotos e vídeos desses mercados. Os cozinheiros acreditam que a adrenalina no sangue dos cães amacia a carne. Quanto mais sofrimento, mais apetitoso o prato. Em nome dessa carne macia, a palavra de ordem é torturar os cães até a morte. Eu já vi a foto de um pastor alemão sendo enforcado na viga de uma cozinha, sendo puxado pelos pés. Eu já testemunhei um vira-latas com as patas dianteiras amarradas para trás do corpo e desisti de imaginar o tamanho de sua dor. Assisti ao vídeo de um cão magrinho que foi mergulhado em água fervendo, retirado, teve sua pele inteirinha arrancada e ainda olhava a câmera, tremendo junto à panela onde foi cozido em vida.

A pergunta básica é: nós, humanos, temos direito a isso? Quem nos deu esse direito? Temos o direito de jogar uma lagosta viva na água fervente? Temos o direito de comer um peixe fatiado ainda vivo no seu prato num restaurante japonês? Temos o direito de prender bezerros em lugares escuros, imobilizados por toda sua curta vida, por um vitelo? Nosso paladar é tão importante assim na ordem das coisas? Um sabor diferente em nossas bocas justifica tudo?

A questão ultrapassa a esfera da ética e da civilidade. A Sars nasce no chão imundo dos mercados chineses. A doença da vaca louca – permanente ameaça na nossa pátria do churrasco – surgiu quando obrigamos o gado a se canibalizar. O terrível ebola se espalha com cada homem africano que devora nossos primos biológicos, gorilas e chimpanzés. Vírus mutantes saltam do sangue de aves para o dos homens sem defesas naturais. Segundo a revista inglesa The Economist, nada menos que 60% das doenças humanas surgidas nos últimos 20 anos têm origem em outras espécies animais. Tony McMichael, pesquisador da Universidade Nacional de Austrália, é bastante claro: "Vivemos num mundo de micróbios. Precisamos ser um pouco mais espertos no jeito como manejamos o mundo ao nosso redor."

Mercados chineses e churrascos africanos parecem fenômenos distantes. Mas o brasileiro continua dependendo demais de alimentação animal. Temos uma churrascaria por quarteirão, e numa cidade de 12 milhões de habitantes, como São Paulo, contam-se nos dedos os restaurantes vegetarianos. E ainda temos um lobby querendo ampliar a oferta de animais nas geladeiras: avestruzes, capivaras, jacarés, tudo criado em cativeiro com carimbo do Ibama. A cada nova espécie consumida pelo homem, mais uma mistura de vírus – algumas combinações inofensivas, outras não.

Para tentar controlar essas doenças, cometemos mais brutalidade: enterramos milhões de aves vivas, afogamos gatos selvagens em piscinas de desinfetante. Provocamos o desastre e massacramos as vítimas. Temos um caminho inteligente: racionalizar, humanizar e diminuir cada vez mais o consumo de animais. Ou podemos continuar o banho de sangue. Aí, todos nós pagaremos o preço.

Quando uma borboleta bate as asas na Europa, pode iniciar um furacão no oceano Pacífico. A Sars começou em mercados chineses e chegou ao Canadá. A gripe aviária já se espalhou por diversos países asiáticos e ameaça lugares distantes como o Paquistão e a Itália. Num mundo de vôos diretos, os gritos desesperados de um cachorro chinês podem chegar um dia ao Brasil por meio de alguma nova e tenebrosa sigla.



domingo, 6 de julho de 2008

Frente à folha branca, mais uma vez eu me desafio. Eu me arrisco nãoarriscando, e se me solto, não me solto o bastante, estou sempre presa na tênue linha que não me liberta de mim mesma.
Frente a esta folha, eu sou um espasmo.
Imagino tudo o que poderia ser escrito aqui, as várias maneiras quais se poderia escrever. E se escrevo agora, é certo: já nada sairá como imaginei, porque tudo foi pensado antes, e pensei com tamanha precisão que imagino se Deus estaria sussurrando ao meu ouvido. (...) Mas não, não foi Deus, que se fosse eu saberia, oh sim, eu saberia e reproduziria perfeitamente a ‘mensagem divina’. Está certo, não foi o Deus.
Imagino quantos desenhos, quantos rabiscos, quantas cores eu poderia espalhar pela folha. Estou sendo devorada; não sei se pela folha, ou se pelo Deus que me falta, ou se por mim...
Sei, deveria me doar mais a isto. Deveria sentar aqui nua e deixar que a folha me vestisse, que ela me tomasse e me fizesse a palavraprimeira; então brotariam outras, miúdas, confusas de tudo, e ocupariam cada qual o seu devido lugar na folha que sou.
Deveria me doar sem receio, mas que posso fazer? ...Deixo-me às interpretações...
É como ter a vontade de viver, mas não a habilidade. Teria eu a criatividade, a verdade; o que me falta é a habilidade. Sim, os meios é que me cansam. Os meios me apavoram, me deixam frente a mim, e quando vejo esses grandes olhos da folha, juro, não sei quê fazer para supri-la.
As palavras são mais que os meios. E eu as necessito como se necessita de água e de alimento. A palavra é meu alimento. (“O que me nutre, me destrói.” Nietzsche) Eu as desejo como quem chama pela vida, posto que já me perco de tudo, morro e renasço através das palavras. Eu as preciso porque preciso de um pouco mais de mim. Sou meu inferno, clarice. Eu me reconheço me julgo e me condeno; meus pecados, não os admito. Eu sou a mão que me segura, prendendo a energia que no lançar-se ao mundo, às pessoas, às coisas, explodiria tudo o que há.

E agora temo que seja tarde. Eu preciso de paz. Peço que as palavras não me fujam, estou tão esgotada. Estou exausta.

Nalgum momento me perdi como de costume. Então isso deve ter acontecido há tempos, e quando penso que me perdi novamente, em verdade, o que perdi foi a metade que eu havia encontrado. Ou seria a metade quem me encontrara?
Não tenho mais o jeito de desmanchar as coisas sobre a folha, como quem pinta uma tela em branco. O desafio é o mesmo; apenas o modo de navegar muda. Sinto falta da maneira como eu tocava a folha, e olhava-a, pura, e cheirava-a, pura, e sentia-a... pura de tudo...

Imagino o que a folha pode ser... Eu poderia amassá-la, arremessá-la ao tempo, vaga, solta, livre e livre por ser pura, livre por estar pronta para ser dominada, e tão-somente.
Sou envolta por um manto, já não posso encarar a branca folha.
Perdemo-nos.
Envolvem-me, crua, aços frios e rígidos, aos quais eu não sei dar nomes.
Mais uma vez eu me retiro sem me doar a você. Mais uma vez eu vou e deixo-a só.
Eis minha sentença, qual aplico a você como aplico também a mim: condeno você a ser somente o que é, e te condeno a conviver com isso eternamente... Estará livre de tudo, leve, pesada pelo tempo que cai; estará limpa e indiferente a tudo o mais. Penetra a ti mesma, domina a ti mesma; conhece-te, julga-te. Saberá qual é a agonia que me consome. Saberás como é ir pelo mundo, sugando o extrato, sem saber reproduzi-lo. Embebedar-se-á com o vinho da vida e jogará a garrafa vazia ao mundo, sem dizer qual foi o gosto, sem fazer compreender o quanto isso te valeu.
Vou como quem deixa para traz tudo o que já se tem. E nessa pobre riqueza das coisas quais eu não preciso e, tendo-as, não me bastam, não sei se suporto tudo o que me é concedido.
Meço o meu comprimento, e o espírito, noto, não tem medida.


...Então estender as mãos, como quem pede mais, massa sedenta; e enquanto todos me crêem assim, todo ato que faço é doação...

terça-feira, 24 de junho de 2008

Estamos com fome de amor

Uma vez Renato Russo disse com uma sabedoria ímpar: "Digam o que disserem, o mal do século é a solidão". Pretensiosamente digo que assino embaixo sem dúvida alguma. Parem pra notar, os sinais estão batendo em nossa cara todos os dias.

Baladas recheadas de garotas lindas, com roupas cada vez mais micros e transparentes, danças e poses em closes ginecológicos, chegam sozinhas. E saem sozinhas. Empresários, advogados, engenheiros que estudaram, trabalharam, alcançaram sucesso profissional e, sozinhos.

Tem mulher contratando homem para dançar com elas em bailes, os novíssimos "personal dance", incrível. E não é só sexo não, se fosse, era resolvido fácil, alguém duvida?

Estamos é com carência de passear de mãos dadas, dar e receber carinho sem necessariamente ter que depois mostrar performances dignas de um atleta olímpico, fazer um jantar pra quem você gosta e depois saber que vão "apenas" dormir abraçados, sabe, essas coisas simples que perdemos nessa marcha de uma evolução cega.

Pode fazer tudo, desde que não interrompa a carreira, a produção. Tornamos-nos máquinas e agora estamos desesperados por não saber como voltar a "sentir", só isso, algo tão simples que a cada dia fica tão distante de nós.

Quem duvida do que estou dizendo, dá uma olhada no site de relacionamentos Orkut, o número que comunidades como: "Quero um amor pra vida toda!", "Eu sou pra casar!" até a desesperançada "Nasci pra ser sozinho!".

Unindo milhares, ou melhor, milhões de solitários em meio a uma multidão de rostos cada vez mais estranhos, plásticos, quase etéreos e inacessíveis.

Vivemos cada vez mais tempo, retardamos o envelhecimento e estamos a cada dia mais belos e mais sozinhos. Sei que estou parecendo o solteirão infeliz, mas pelo contrário, pra chegar a escrever essas bobagens (mais que verdadeiras) é preciso encarar os fantasmas de frente e aceitar essa verdade de cara limpa. Todo mundo quer ter alguém ao seu lado, mas hoje em dia é feio, démodé, brega.

Alô gente! Felicidade, amor, todas essas emoções nos fazem parecer ridículos, abobalhados, e daí? Seja ridículo, não seja frustrado, "pague mico", saia gritando e falando bobagens, você vai descobrir mais cedo ou mais tarde que o tempo pra ser feliz é curto, e cada instante que vai embora não volta.

Mais (estou muito brega!), aquela pessoa que passou hoje por você na rua, talvez nunca mais volte a vê-la, quem sabe ali estivesse a oportunidade de um sorriso a dois.

Quem disse que ser adulto é ser ranzinza? Um ditado tibetano diz que se um problema é grande demais, não pense nele e se ele é pequeno demais, pra quê pensar nele. Dá pra ser um homem de negócios e tomar iogurte com o dedo ou uma advogada de sucesso que adora rir de si mesma por ser estabanada; o que realmente não dá é continuarmos achando que viver é out, que o vento não pode desmanchar o nosso cabelo ou que eu não posso me aventurar a dizer pra alguém: "vamos ter bons e maus momentos e uma hora ou outra, um dos dois ou quem sabe os dois, vão querer pular fora, mas se eu não pedir que fique comigo, tenho certeza de que vou me arrepender pelo resto da vida".

Antes idiota que infeliz!

[Arnaldo Jabor]


...Tenho cá pra mim que o bom amor é mesmo aquele que nos faz ser o melhor que podemos ser, juntos...

quarta-feira, 28 de maio de 2008


Impressionante mutabilidade das emoções............
Amor e ódio dançam de mãos dadas na alma...
Ora, um encanta;
Ora, outro despreza.
O lindo torna-se repugnante;
O feio, admirável...



...Fiat Vita!

Dor, forma, beleza

A política nos proporciona, atualmente, perplexidade, horror e desesperança. O desamparo básico é o da destruição dos anseios e dos sonhos acalentados por todos. Invocamos horror e sonhos e estamos em território dos analistas Sabemos que precisamos dormir todos os dias para que o abismo do dia-a-dia encontre trajeto expressivo em nosso espírito. Toleramos menos a ausência do sono que a da sede ou da fome. Torturadores sempre souberam disso e se utilizaram desse expediente. Nesses termos, fome zero é pouco. Alimentação e abrigo são necessidades de uma planta; acresça-se sexo e estaremos no reino animal; um pouco mais de afeto e estaremos no espaço dos bichos de estimação.

Cultura é o recurso essencial para o viver humano. Cultura é o prosaico que nos orienta o vestir, o comer, o trajeto de amor, os ritos de nascimento, de fertilidade e de morte. Cultura é o sonho cotidiano. Sua ausência nos destrói; é a ruptura social e familiar que gera as mazelas de nossas cidades. Em 1970, éramos 90 milhões, metade vivendo no campo. Em 2002, já somos 170 milhões de habitantes, apenas 20% morando no campo. Nossas cidades ganharam 90 milhões de novos cidadãos. Como recebê-los e ampará-los, como fornecer-lhes uma ecologia social e cultural? Some-se a isso a mudança no modo de vida que acompanha a enorme concentração de riquezas necessária à produção, a demanda por crescentes recursos pessoais para o trabalho, a perda do Estado de seu papel de protetor e investidor de recursos e temos a moldura para o esfacelamento dos paradigmas do viver cotidiano. Trauma pode ser definido como excesso de demanda comunicativa acompanhado de insuficiência de recursos expressivos. Para viver, necessitamos de configurações que nos orientem.

Em seus trabalhos "La Figlia Che Piange", de 1948, e "O Direito à Literatura", de 1988, Antonio Candido cita Otto Rank, afirmando que a arte é o sonho da humanidade. Praticamos a arte há 40 milênios, mas temos agricultura há apenas 10.000 anos. O sonho não é premonitório, simplesmente nos avisa que já temos um conhecimento primordial, ainda não apreendido na esfera do discurso. Necessitamos tanto do sonho como da arte para lidar com as transformações do mundo. Porém, há que se diferenciar sonho de devaneio. Da mesma forma, projetos políticos têm que se diferenciar de utopias. O projeto de poder sem enquadramento político será castigado. Será levado sem defesa pelas forças que supostamente combate, tornando-se não mais que a caricatura delas.

Assim, diante do lamentável espetáculo que ora presenciamos, diante do sonho que desmorona sem deixar restos, precisamos de novas construções. Em que direção vamos nos mover, com quais forças transformadoras contamos? A realidade sempre nos foge. A arte, se por um lado não supre necessidades, é essencial em sua raiz de percepção e figuração do impensável. Nesses termos, é sempre política. Faz parte dessa pobreza a inépcia de Otelo para viver um amor. Mas seu maior fracasso reside em, como bárbaro ou mouro, encontrar expediente para ascender à aristocracia veneziana e se sustentar em meio às intrigas da corte onde Iagos são a regra. Ele então nada mais pode fazer senão matar seu amor. O destino do pequeno serial killer em "O Vampiro de Düsseldorf", filme do início dos anos 30, pode ainda hoje nos surpreender. O personagem, com sua atividade tosca, estimula a repressão, "atrapalha os negócios" e impede o exercício da delinqüência organizada. Esta precisa eliminá-lo e, em concorrência com o Estado organizado, captura o "estranho". Há a antológica cena da assembléia de bandidos que, num arremedo de legalidade, usurpa a bandeira da ética e conduz o julgamento do crime não lucrativo praticado pelo "vampiro". O filme antevê o triunfo do nazismo. A arte dá trajetos para os pensamentos e é antídoto para o horror do inominado. Somos herdeiros de Hiroshima, holocaustos, final de utopias burocratizadas. Quanto tempo é necessário para construirmos uma reflexão? A falta de reflexão conduz o diagnóstico e a crítica da falha ética a respostas morais. Fica-se devendo a resposta política. Não são apenas as ditaduras que entranham a intimidade das pessoas. O imaginário reservou à psicanálise o lugar de interprete de significados. Um fato reportaria sempre a outro que o explica. Mas desde o início vemos que a obra de Freud se debruça sobre os questionamentos de como um processo se transforma em produto cultural, de como os estímulos que nos atingem a partir do corpo ou do mundo se transformam em imagens, sonhos e pensamento. Seria mais próprio definir a função da psicanálise na passagem da natureza para a cultura. Assim, se no sentimento de angústia podemos figurar fantasmas, no horror, na dor há o vazio representativo, vazio de forma, vazio onírico. D. Meltzer dizia que os primórdios do sentimento de beleza vêm da emoção do bebê ao ver o rosto da mãe que o compreende. Configurar a beleza de um projeto que corresponda à dimensão de nossos recursos e nossos impasses torna-se hoje condição de sobrevivência.


{
Leopold Nosek}

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Podemos ser maiores que nós mesmos...
Não importa o quanto pensemos ser grandes,
Nem o tamanho de nossa egocêntrica cegueira;
Fato é que pequenos somos e logo morremos.
Transitoriedade e limitação nos constitui,
Muito embora queiramos ser eternos.
Mas eis que um caminho se nos abre:
Dedicarmo-nos ao que nos ultrapassa,
Àquilo que está além de nós:
Os outros, o futuro...
Sim, podemos ser maiores que nós mesmos!

{Texto de alguém qual eu tenho grande consideração, e a quem eu desejo muita sorte e paz...}

Onde você vai, ninguém sabe, ninguém conhece... Dimensão sete! um (re)começo?
---isso está tão bom quanto poderia estar...
E perder o eclipse que se passa em minh’alma? Eu não.. quero estar sã quando voltar a mim mesma, que –confesso!- estou com saudades dessa ‘adorável criança insuportável’ que sou, fui, e não reconheço há tanto tempo...
Imagino que tenha me perdido nalguma volta brusca, nalguma folha já amarelada, nalguma palavra desconhecida...
Curioso: sempre tive medo de me perder nas palavras, que já vi isso acontecer tantas vezes... estancar ali, diante da vírgula, do ponto, da palavrápice, sentindo o pulso frear, sentindo o ar quase faltar...e seguir... deleitando-me com as palavras todas, com cada pedacinho reproduzido ali, como um espelho quebrado...
Tenho medo, dizia, de seguir rápido demais, deixando-me ali, à beira do abismo que tive medo de saltar, diante do êxtase que, alguma vez, preferi contemplar que viver...
Lembro de quantas vezes quase me perdi na Alice, no Pequeno Príncipe, no Peter, nas personagens de Shakespeare. Quantas vezes tive de voltar e, calmamente, puxar pela mão essa criança em que me vi...
Por isso o medo: pois se não me suporto, tão mais odiosa é a solidão em que fico quando me dispenso...

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Carta aos Mortos


Amigos, nada mudou
em essência.

Os salários mal dão para os gastos,
as guerras não terminaram
e há vírus novos e terríveis,
embora o avanço da medicina.
Volta e meia um vizinho
tomba morto por questão de amor.
Há filmes interessantes, é verdade,
e como sempre, mulheres portentosas
nos seduzem com suas bocas e pernas,
mas em matéria de amor
não inventamos nenhuma posição nova.
Alguns cosmonautas ficam no espaço
seis meses ou mais, testando a engrenagem
e a solidão.
Em cada olimpíada há récordes previstos
e nos países, avanços e recuos sociais.
Mas nenhum pássaro mudou seu canto
com a modernidade.

Reencenamos as mesmas tragédias gregas,
relemos o Quixote, e a primavera
chega pontualmente cada ano.

Alguns hábitos, rios e florestas
se perderam.
Ninguém mais coloca cadeiras na calçada
ou toma a fresca da tarde,
mas temos máquinas velocíssimas
que nos dispensam de pensar.

Sobre o desaparecimento dos dinossauros
e a formação das galáxias
não avançamos nada.
Roupas vão e voltam com as modas.
Governos fortes caem, outros se levantam,
países se dividem
e as formigas e abelhas continuam
fiéis ao seu trabalho.

Nada mudou em essência.

Cantamos parabéns nas festas,
discutimos futebol na esquina
morremos em estúpidos desastres
e volta e meia
um de nós olha o céu quando estrelado
com o mesmo pasmo das cavernas.
E cada geração , insolente,
continua a achar
que vive no ápice da história.

[Affonso Romano de Sant'Anna]

terça-feira, 13 de maio de 2008

“Sou o que se chama de pessoa impulsiva. Como descrever? Acho que assim: vem-me uma idéia ou um sentimento e eu, em vez de refletir sobre o que me veio, ajo quase que imediatamente. O resultado tem sido meio a meio: às vezes acontece que agi sob uma intuição dessas que não falham, às vezes erro completamente, o que prova que não se tratava de intuição, mas de simples infantilidade.
Trata-se de saber se devo prosseguir nos meus impulsos. E até que ponto posso controlá-los. [...] Deverei continuar a acertar e a errar, aceitando os resultados resignadamente? Ou devo lutar e tornar-me uma pessoa mais adulta? E também tenho medo de tornar-me adulta demais: eu perderia um dos prazeres do que é um jogo infantil, do que tantas vezes é uma alegria pura. Vou pensar no assunto. E certamente o resultado ainda virá sob a forma de um impulso. Não sou madura bastante ainda. Ou nunca serei.”
[C.Lispector]

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Subtraindo a si mesma. Cuidando das flores, das cores, dos argumentos... Desejava apenas algo leve que esclarecesse suas idéias, como um vôo meio quebrado, com as asas tortas. Sim, se eu fosse um anjo, teria uma asa só. Que afianço: não mereço duas asas. Pois assim eu teria apenas vôos suaves, tranqüilos... e eu já desconheço qualquer idéia de tranqüilidade...

É sair para estar preso
É ficar para estar só
Estou só, estou só estou............

Tem um mar no meio da casa. Peço socorro. Estou me afogando na bagunça que fiz; céus, estou transbordando, dispersando... abstraí...

Estranho me encontrar ali, em partes, com a cara nua olhando para mim, como quem quer dizer algo, com esses olhos de desespero, intrigados, a fitar os meus, que duvidam

Sim, duvidam dessa tua face protuberante, desse teu ar soberano ou sei lá o quê que é desafiador e de dar dó – o que te faz tão assustada assim, criança?
Conta pra mim que eu não tenho boca
Emudeci-me há tanto tempo
Tem uma longa data que já não sei o que é isso, menina
Então acredite, pode confiar-me... como os doces de todas as crianças que crêem nos pássaros só porque eles voam
Como nos metais, que tão sólidos, cedem...
Como na entrega do inseto que, sabe, será devorado.
Não tenho pés nem mãos, perdi o apetite; minhas idéias: já não as tenho mais em ordem... ouvi dizer: não regulo bem, sou dispersa demais para te entorpecer com doces palavras, não é para coisas –ou pessoas- como eu, estar tão perto assim do que quero ser.

Devia manter-se mais longe
ou
eu
te
devoro
menina tonta.

Cria vergonha, lava essa cara pálida e dá um jeito nesses olhos, que estão arregalados por demais esta manhã...
O dia vem chegando nessa má vontade que, perdoe, perdoe, mas é de ferrar a vida de qualquer um.
Ah, você está desajeitada... tem de ter ânimo para agüentar a arte, para concretizá-la: viver!...
E quê sabe você, criança? Atente ao café, que vem e sobe. Deixa eu pensar nas coisas em si e você,
Hmmm

Você fica com a confortável tarefa de ser.

domingo, 11 de maio de 2008

"Depois de muito, depois de vagas léguas,
confuso de domínios, incerto de territórios,
acompanhado de pobres esperanças
e companhias infiéis e desconfiados sonhos,
amo o tenaz qua ainda sobrevive nos meus olhos,
ouço no meu coração os meus passos de ginete,
mordo o fogo adormecido e o sal arruinado,
e de noite, de atmosfera escura e luto fugitivo,
aquele que vela na orla dos acampamentos,
o viajor armado de estéreis resistências,
detido entre sombras que crescem e asas que tremem,
me sinto ser, e meu braço de pedra me defende.

Há entre ciências de pranto um altar confuso,
e na minha sessão de entardeceres sem perfume,
nos meus abandonados dormitórios onde mora a lua,
e aranhas de minha propriedade, e destruições que me
são queridas
adoro o meu próprio ser perdido, minha substância
imperfeita,
meu golpe de prata e minha perda eterna.
Ardeu a uva úmida, e a sua água funerária
ainda vacila, ainda reside,
e o patrimônio estéril, e o domicilio traidor.
Quem fez cerimônia de cinzas?
Quem amou o perdido, quem protegeu o último?
O osso do pai, a madeira do barco morto,
e o seu próprio final, a sua mesma fuga,
a sua força triste, o seu deus miserável?

Espreito, assim, o inanimado e o dolente,
e o testemunho estranho que sustento,
com eficiência cruel e escrito em cinzas,
é a forma de esquecimento que prefiro,
o nome que dou à terra, o valor dos meus sonhos,
a quantidade interminável que divido
com os meus olhos de inverno, durante cada dia deste
mundo."
[Pablo Neruda]

sábado, 3 de maio de 2008

Ah! Que me desculpem o azedume, mas hoje eu digo que tanto faz se o café está quente ou frio. Tanto faz o tempo que passa sem ser vivido. Tanto faz as várias cores que enfeitam esses dias que, a meu ver, parecem cinzas. Todas essas cores que passam despercebidas, tanto faz...

Se a luz acabar, se a canção desafinar, se o céu desabar, se a bolsa estourar, se a comida esfriar, se o Deus se atrasar, se a casa queimar, se o bonito enfear, se a voz calar, se o tempo parar... Nada, nada disso me importará!

Pode pegar o ônibus agora, vai criança (e você nem sabe que vai morrer)

Pode comer; vai, mata essa tua fome desvairada que é pura ambição (e você nem sabe que vai morrer)

Pode se vingar; vai, exemplo de justiça (e você nem sabe que desde há tempos está morto).

e você nem sabe que desde há tempos está morto... Vá procurar uma cova, uma soda pra dar fim a essa tua cara que derrete dia após dia, deixando à vista teu vulto negro de inveja, mentira. exalando esse cheiro pútrido dos teus ossos, da tua carne artificial...

Saibam: nada disso me importará hoje.

De nada me vale a vida, de nada me vale a morte. E se parece bobagem, que o seja: é que hoje eu não tô com vontade da vida, visse. Hoje eu não tô para movimentos bruscos nem para barulheira à toa.

Tanto faz o sono, se ele vier; tanto faz a minha vontade de ser e de expressar, de sentir...
Verdade
Mentira
também isso de nada me adianta

O gás vazando, o primeiro colocado no momento do tombo, o erro que acabou dando certo, a vida que causou tantas mortes, a morte que venha... a morte que se dane...

Eu não me importo.

Deixa pra lá a cultura que nos levaram, o dinheiro que é roubado, a corrupção que é conservada, o cinema de mentira, a educação de mentira, a música de mentira, o sistema que é a ordem e o progresso... Ah! minhas estimadas pessoas, meus irmãos e minhas irmãs, meus companheiros: eis-me: massa irrequieta, tomada de loucura, amor, ódio, individualismo, desejo, insatisfação; eis-me: cansada de tanta injustiça, de tantos sonhos que vejo perdidos pelo meu caminho, de todos amores artificiais que são estupidamente cultivados aos montes e que não valem mais que alguns ‘cents’; eis-me: com minhas idéias, meus sonhos, minha esperança, meus pés frios no chão; eis-me: com o controle remoto nas mãos, assistindo às desgraças, rindo da hipocrisia, lamentando a falta de dinheiro, a falta de tempo, a falta de beleza.

Eis-me, pessoa simples que assim como você, meu(minha) caro(a), permaneço esperando, torcendo para que haja vida em outro planeta qualquer, e que este seja menos moderno e menos humano, para que lá eu possa (re)começar; para que lá eu possa me refugiar e (re)aprender a viver!

[16/03/08]

sexta-feira, 2 de maio de 2008



...Acorda, liga a TV, 'que mundo maluco é esse, hen?'.. Ocorrem tantos fatos desconcertantes, e estes, cedo ou tarde, acabam por ofuscar nossos sonhos, nossas vontades, nossa alegria em viver...
Temos, naturalmente, uma visão tão maravilhosa das coisas, mas isso vai se perdendo no caminho, enquanto passa o tempo, enquanto passa a vida...
Eu já fui assim, toda sonhos e cores. Quando a gente é criança, não percebe mesmo muito sobre esse mundo, até mesmo porque, nesta fase, o centro do universo é nosso próprio umbigo. Mas vejamos se alguma criança é capaz de fazer mal a alguém... Ora, embora sejamos, ouso dizer, 'egoístas' quando crianças, não somos capazes de maldades, pois ainda não fomos corrompidos pelas malícias do mundo, crueldades, 'facetas maldosas'da vida...
Dia após dia, a vida faz de nós pessoas mais duras, ensina-nos tanto, nada de interessante, nada de importante, é verdade, apenas essa sequencia de fatos entrelaçados, como num programa de computador... Uma vida inteira esquecida no varal, deixada na gaveta, uma vida que simplesmente deixamos de viver...
Ensinam-nos a não sonhar, essa é a vida oras, querem-nos ovelinhas, sempre mansas, sempre iguais, seguindo este caminho já trilhado, já percorrido, sempre, sempre, em círculos, seguindo toda essa manada de ovelhas-zumbis, todas as gerações de criaturas que passaram e passam por aqui, sem rumo, sem crenças, sem sonhos, sem ideais... nossas esperanças, oh, esperanças de que algum dia, possamos ser quem realmente somos...
Alguém me diga: são pedras, buracos, problemas, desgraças...por que não sonhar? Vamos,digam-me, que mal há em viver, digna e simplesmente, VIVER?!
Pois é exatamente isso que estou dizendo, sim, querem-nos como massas inertes, máquinas, mas olhe, eu é que não sou nada disso! Mas 'cá' eu falo sem mentiras, então confesso que, sim, eu havia, de fato, 'morrido'.
Eu já havia perdido, como todo mundo perde, as cores, fantasias, criancisses, esperanças... Descoloriram minh'alma, deixaram-me perdida, sem eira-nem-beira, num mundo completamente louco e me obrigaram a simplesmente neutralizar todos os meus sentidos para me adaptar a toda essa loucura que chamam de sociedade. Anjo caído, com as asas murchas e sujas, proibiram-me de voar, sentir, sonhar... Morri. Não sei bem como, nem quando, mas conseguiram vencer meus sentidos, fizeram-me tão pequena, assassinaram-me. Quantas vezes? Sinceramente, já perdi as contas... tantas foram as noites sem dormir, quebrando a cabeça com problemas sobre os quais ninguém comentava, pensando sozinha sobre estrelas e pessoas, tantas foram as vezes em que eu tentava voltar a mim, ser eu mesma, sem medo, mas meu erro foi acreditar que sim, eu era pequena... diante dos olhos do mundo inteiro e, principalmente, diante de meus próprios olhos, eu era pequena. Deixei-me (con)vencer...morrer...
Passei tempos horríveis, fingia sorrisos amarelos, solidão era tudo o que me restava, dias secos. Dias malditos!
Tempo, tempo... Acontece que a vida tem dessas coisas intrigantes, quais nós nunca sabemos explicar: conheci...encontrei, de repente,Luzes!
Anjos que vêm assim, aos trapos, (vestes-te de tudo o que há de pior, para enganar meus sentidos) mas são Luzes e sentimentos, e tudo o mais, fica pra depois. Digo o que encontrei: sonhos...
Foi como despertar num dia de Sol, mas algo bem melhor que isso, sim, foi livre e agradável...


... fui tomada por uma imensa vontade de viver, misto estranho de alegria e saudade, sinto-me viva!
[
23/11/07]

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Sinto vergonha de mim!

"Por ter sido educadora de parte desse povo,
por ter batalhado sempre pela justiça,
por compactuar com a honestidade,
por primar pela verdade
e por ver este povo já chamado varonil
enveredar pelo caminho da desonra.

Sinto vergonha de mim
por ter feito parte de uma era
que lutou pela democracia,
pela liberdade de ser
e ter que entregar aos meus filhos,
simples e abominavelmente,
a derrota das virtudes pelos vícios,
a ausência da sensatez
no julgamento da verdade,
a negligência com a família,
célula-mater da sociedade,
a demasiada preocupação
com o "eu" feliz a qualquer custo,
buscando a tal "felicidade"
em caminhos eivados de desrespeito
para com o seu próximo.

Tenho vergonha de mim
pela passividade em ouvir,
sem despejar meu verbo,
a tantas desculpas ditadas
pelo orgulho e vaidade,
a tanta falta de humildade
para reconhecer um erro cometido,
a tantos "floreios" para justificar
atos criminosos,
a tanta relutância
em esquecer a antiga posição
de sempre "contestar",
voltar atrás
e mudar o futuro.

'Tenho vergonha de mim
pois faço parte de um povo
que não reconheço,
enveredando por caminhos
que não quero percorrer...

Tenho vergonha da minha impotência,
da minha falta de garra,
das minhas desilusões
e do meu cansaço.

Não tenho para onde ir
pois amo este meu chão,
vibro ao ouvir meu Hino
e jamais usei a minha Bandeira
para enxugar o meu suor
ou enrolar meu corpo
na pecaminosa manifestação de nacionalidade.

Ao lado da vergonha de mim,
tenho tanta pena de ti, povo brasileiro!

"De tanto ver triunfar as nulidades,
de tanto ver prosperar a desonra,
de tanto ver crescer a injustiça,
de tanto ver agigantarem-se os poderes
nas mãos dos maus,
o homem chega a desanimar da virtude,
a rir-se da honra,
a ter vergonha de ser honesto".

[Ruy Barbosa]

sábado, 12 de abril de 2008

**La mort n’exist pas’. A lira que Orfeu homem-dionísio empunha é arma. de suas

cordas nasce o ruído. Combustível da Música.

matéria-prima dos astros em

combustão. relâmpago.

*essa é a essência do homem. estrelas

despencando do céu. atrito. energia

força matriz. ausência.

após a colisão de sólidos: solidão. O

buraco aberto na altura dos olhos na

parede. As unhas e cavernas--- uma gárgula.

O negrume tem a medida da pupila. O

líquido luminoso escoa através dele

arrastando toda matéria pulsante

tornando mais denso o fluxo da voz. o

fluxo animal.

**acaba de ser construída a ponte. o

raciocínio

não é exato. Platão não sobreviveu aos

românticos.

Das entranhas fez-se o verbo. tudo

o que sonho sou eu.

Uma glabela de luz transpassa a pele

No miolo do homem se aloja outro homem.

Tudo que vejo sou eu. e a matéria

esparsa. só sólida ao toque de minha epiderme.

*** isto é um espelho. expirais. ruas. sem saída.

passos dentro da garganta.

canto no canto da voz: diplofonia.

Triturar o átrio. atrito de terra no útero

hirto: o aro raro. faca de Sal no silêncio

onde arde o Ventre do Vento.

** Sólidos são os dias que se materializam

em noites. e nuvens em metamorfoses

de cor e odor.

As retinas que latejam são movimento

dos astros que percorrem o espaço

Sem pensar em suas rotações.

Por isso grito e amplio esta paisagem

com minha dissonância de trevas.

Por isso sou primitivo como a pedra.

como o barro. como a raiz que se desprende

da planta e encravada no centro no planeta nutre-se de

fuligem. restos de insetos.

sáurios. Silêncio e morte. **


Ah! Fica pra próxima, que a enorme vontade de postar aqui já foi, agora deixe........................