domingo, 6 de julho de 2008

Frente à folha branca, mais uma vez eu me desafio. Eu me arrisco nãoarriscando, e se me solto, não me solto o bastante, estou sempre presa na tênue linha que não me liberta de mim mesma.
Frente a esta folha, eu sou um espasmo.
Imagino tudo o que poderia ser escrito aqui, as várias maneiras quais se poderia escrever. E se escrevo agora, é certo: já nada sairá como imaginei, porque tudo foi pensado antes, e pensei com tamanha precisão que imagino se Deus estaria sussurrando ao meu ouvido. (...) Mas não, não foi Deus, que se fosse eu saberia, oh sim, eu saberia e reproduziria perfeitamente a ‘mensagem divina’. Está certo, não foi o Deus.
Imagino quantos desenhos, quantos rabiscos, quantas cores eu poderia espalhar pela folha. Estou sendo devorada; não sei se pela folha, ou se pelo Deus que me falta, ou se por mim...
Sei, deveria me doar mais a isto. Deveria sentar aqui nua e deixar que a folha me vestisse, que ela me tomasse e me fizesse a palavraprimeira; então brotariam outras, miúdas, confusas de tudo, e ocupariam cada qual o seu devido lugar na folha que sou.
Deveria me doar sem receio, mas que posso fazer? ...Deixo-me às interpretações...
É como ter a vontade de viver, mas não a habilidade. Teria eu a criatividade, a verdade; o que me falta é a habilidade. Sim, os meios é que me cansam. Os meios me apavoram, me deixam frente a mim, e quando vejo esses grandes olhos da folha, juro, não sei quê fazer para supri-la.
As palavras são mais que os meios. E eu as necessito como se necessita de água e de alimento. A palavra é meu alimento. (“O que me nutre, me destrói.” Nietzsche) Eu as desejo como quem chama pela vida, posto que já me perco de tudo, morro e renasço através das palavras. Eu as preciso porque preciso de um pouco mais de mim. Sou meu inferno, clarice. Eu me reconheço me julgo e me condeno; meus pecados, não os admito. Eu sou a mão que me segura, prendendo a energia que no lançar-se ao mundo, às pessoas, às coisas, explodiria tudo o que há.

E agora temo que seja tarde. Eu preciso de paz. Peço que as palavras não me fujam, estou tão esgotada. Estou exausta.

Nalgum momento me perdi como de costume. Então isso deve ter acontecido há tempos, e quando penso que me perdi novamente, em verdade, o que perdi foi a metade que eu havia encontrado. Ou seria a metade quem me encontrara?
Não tenho mais o jeito de desmanchar as coisas sobre a folha, como quem pinta uma tela em branco. O desafio é o mesmo; apenas o modo de navegar muda. Sinto falta da maneira como eu tocava a folha, e olhava-a, pura, e cheirava-a, pura, e sentia-a... pura de tudo...

Imagino o que a folha pode ser... Eu poderia amassá-la, arremessá-la ao tempo, vaga, solta, livre e livre por ser pura, livre por estar pronta para ser dominada, e tão-somente.
Sou envolta por um manto, já não posso encarar a branca folha.
Perdemo-nos.
Envolvem-me, crua, aços frios e rígidos, aos quais eu não sei dar nomes.
Mais uma vez eu me retiro sem me doar a você. Mais uma vez eu vou e deixo-a só.
Eis minha sentença, qual aplico a você como aplico também a mim: condeno você a ser somente o que é, e te condeno a conviver com isso eternamente... Estará livre de tudo, leve, pesada pelo tempo que cai; estará limpa e indiferente a tudo o mais. Penetra a ti mesma, domina a ti mesma; conhece-te, julga-te. Saberá qual é a agonia que me consome. Saberás como é ir pelo mundo, sugando o extrato, sem saber reproduzi-lo. Embebedar-se-á com o vinho da vida e jogará a garrafa vazia ao mundo, sem dizer qual foi o gosto, sem fazer compreender o quanto isso te valeu.
Vou como quem deixa para traz tudo o que já se tem. E nessa pobre riqueza das coisas quais eu não preciso e, tendo-as, não me bastam, não sei se suporto tudo o que me é concedido.
Meço o meu comprimento, e o espírito, noto, não tem medida.


...Então estender as mãos, como quem pede mais, massa sedenta; e enquanto todos me crêem assim, todo ato que faço é doação...

2 comentários:

Anônimo disse...

quando a imensidão assusta, me percebo melhor: pequeno

lá fora um mundo de coisas despenca como as águas de uma tempestade impiedosa... e de duas pequenas janelas um garoto se tortura com o que deixou de acontecer...

Anônimo disse...

p.s.: amo você

J.