(...)
Ah, deuses, muitas coisas me agitam agora!... Tenho novamente a sensação de que vou explodir, tamanha é a agonia em que me encontro.
Em meu coração, tantas pombas e pássarosindefinidos voejam, batem as asas umas contra as outras, reproduzindo sons que não sei dizer se orquestra ou pura tempestade. Em minh’alma mora um espírito velho; corre também uma menina louca; dança-me uma mulher já muito bem feita, nada satisfeita com a boa vida que Deus lhe deu... cantam em mim todos os mendigos, excepcionalmente em noites frias; cantam, ainda, todos os pobres de espírito.
(...) Tentam traduzir-me o louco, o palhaço, a morte e o Deus...
O louco, ah, bem que tentou, pobre! Mas sumiu... abstraiu-se! Ou sabe-se lá que diabos houve com o homem. Soube apenas que ele andou muito cismado com o fato d’eu me tachar por louca. Nalguns devaneios, descobriu que ao tentar compreender minha loucura, quase alcançou a lucidez; capaz que por medo de alcançá-la, evadiu-se!
O palhaço foi homem muito corajoso, verdade . Problema foi que o fulano, ao se aproximar d’mim, em mau momento, diga-se de passagem, surpreendeu-se ao reconhecer as feras que trago cá trancafiadas... Tentou fazer brotar-me um sorriso no rosto, o que pr’um homem como tal até foi muito, e reconheço o seu esforço. Mas há de compreender, Sr. Palhaço(se é que já não o compreendeu , por contra-gosto) que essa tristeza qual carrego n’alma é muita visse?! Ai, são dores tamanhas essas que me sufocam e apertam o coração...
A Morte, já amiga de longa data (?), chegou-se como quem é de casa. Cá estou eu, e já sinto tantos negros anjos a voejarem-me, e no mesmo tempo, um vazio indizível, que imagino ser a hora de se me levarem, dona Morte. Veja bem: quê mais posso eu fazer? Eu nem sementes tenho para deixar; que me perdoem os meus familiares e amigos, amo-lhes tanto.............. mas tratemos logo de dar fim a isso, dona Morte, vamos embora desse mundo louco! Valei-me pai e mãe, eu só não contava com a sensibilidade da Morte, que se recusa a levar-me. Diz ela que prefere conter-se e fitar meus olhos, quais, diz, “refletem-na”...
E o Deus é o único qual eu não esperava grande s feitos. O Deus não me vem. Não vem porque desistiu...e estamos acertados, eu o perdôo por isso, apenas desconfio que ele não me perdoe, e invejo-o por ser tão justo. Ah pai, estás muito certo. Ainda assim peço que me perdoe os modos tão crus; mas é estranho sentir-se tão incômodo consigo? Sou impossível e não me suporto; quê é que se faz?
Deus, fazei com que a música atravesse essa alma em tensão como a luz do sol o faz; pede que saiam todas as criaturas, palavras, sons, figuras que se me fazem moradia; o que desejo agora é si lên c i o...
Fazei com que os surdos compreendam-me as expressões.
Fazei com que os mudos colem-se às cores de meus cabelos, de meus olhos, de minha pele e minhas idéiascarmesin, e através delas possam expor suas necessidades...
Fazei com que os cegos ouçam-me, orquestra, revoada de pássaros, silêncio, apocalipse... fazei com que estes sintam-se a vontade pai, pois inimigos eu tenho por demais... e ai meudeus, se não for pedir muito, dai jeito nessa criatura que sou; peço que regresses a mim e largo-me, então; dê cá um jeitinho, que eu não agüento, eu não me agüento mais...
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