Amor e ódio dançam de mãos dadas na alma...
Ora, um encanta;
Ora, outro despreza.
O feio, admirável...
...Fiat Vita!
Dor, forma, beleza
Cultura é o recurso essencial para o viver humano. Cultura é o prosaico que nos orienta o vestir, o comer, o trajeto de amor, os ritos de nascimento, de fertilidade e de morte. Cultura é o sonho cotidiano. Sua ausência nos destrói; é a ruptura social e familiar que gera as mazelas de nossas cidades. Em 1970, éramos 90 milhões, metade vivendo no campo. Em 2002, já somos 170 milhões de habitantes, apenas 20% morando no campo. Nossas cidades ganharam 90 milhões de novos cidadãos. Como recebê-los e ampará-los, como fornecer-lhes uma ecologia social e cultural? Some-se a isso a mudança no modo de vida que acompanha a enorme concentração de riquezas necessária à produção, a demanda por crescentes recursos pessoais para o trabalho, a perda do Estado de seu papel de protetor e investidor de recursos e temos a moldura para o esfacelamento dos paradigmas do viver cotidiano. Trauma pode ser definido como excesso de demanda comunicativa acompanhado de insuficiência de recursos expressivos. Para viver, necessitamos de configurações que nos orientem.
Em seus trabalhos "La Figlia Che Piange", de 1948, e "O Direito à Literatura", de 1988, Antonio Candido cita Otto Rank, afirmando que a arte é o sonho da humanidade. Praticamos a arte há 40 milênios, mas temos agricultura há apenas 10.000 anos. O sonho não é premonitório, simplesmente nos avisa que já temos um conhecimento primordial, ainda não apreendido na esfera do discurso. Necessitamos tanto do sonho como da arte para lidar com as transformações do mundo. Porém, há que se diferenciar sonho de devaneio. Da mesma forma, projetos políticos têm que se diferenciar de utopias. O projeto de poder sem enquadramento político será castigado. Será levado sem defesa pelas forças que supostamente combate, tornando-se não mais que a caricatura delas.
Assim, diante do lamentável espetáculo que ora presenciamos, diante do sonho que desmorona sem deixar restos, precisamos de novas construções. Em que direção vamos nos mover, com quais forças transformadoras contamos? A realidade sempre nos foge. A arte, se por um lado não supre necessidades, é essencial em sua raiz de percepção e figuração do impensável. Nesses termos, é sempre política. Faz parte dessa pobreza a inépcia de Otelo para viver um amor. Mas seu maior fracasso reside em, como bárbaro ou mouro, encontrar expediente para ascender à aristocracia veneziana e se sustentar em meio às intrigas da corte onde Iagos são a regra. Ele então nada mais pode fazer senão matar seu amor. O destino do pequeno serial killer em "O Vampiro de Düsseldorf", filme do início dos anos 30, pode ainda hoje nos surpreender. O personagem, com sua atividade tosca, estimula a repressão, "atrapalha os negócios" e impede o exercício da delinqüência organizada. Esta precisa eliminá-lo e, em concorrência com o Estado organizado, captura o "estranho". Há a antológica cena da assembléia de bandidos que, num arremedo de legalidade, usurpa a bandeira da ética e conduz o julgamento do crime não lucrativo praticado pelo "vampiro". O filme antevê o triunfo do nazismo. A arte dá trajetos para os pensamentos e é antídoto para o horror do inominado. Somos herdeiros de Hiroshima, holocaustos, final de utopias burocratizadas. Quanto tempo é necessário para construirmos uma reflexão? A falta de reflexão conduz o diagnóstico e a crítica da falha ética a respostas morais. Fica-se devendo a resposta política. Não são apenas as ditaduras que entranham a intimidade das pessoas. O imaginário reservou à psicanálise o lugar de interprete de significados. Um fato reportaria sempre a outro que o explica. Mas desde o início vemos que a obra de Freud se debruça sobre os questionamentos de como um processo se transforma em produto cultural, de como os estímulos que nos atingem a partir do corpo ou do mundo se transformam em imagens, sonhos e pensamento. Seria mais próprio definir a função da psicanálise na passagem da natureza para a cultura. Assim, se no sentimento de angústia podemos figurar fantasmas, no horror, na dor há o vazio representativo, vazio de forma, vazio onírico. D. Meltzer dizia que os primórdios do sentimento de beleza vêm da emoção do bebê ao ver o rosto da mãe que o compreende. Configurar a beleza de um projeto que corresponda à dimensão de nossos recursos e nossos impasses torna-se hoje condição de sobrevivência.
Podemos ser maiores que nós mesmos...
Não importa o quanto pensemos ser grandes,
Nem o tamanho de nossa egocêntrica cegueira;
Fato é que pequenos somos e logo morremos.
Transitoriedade e limitação nos constitui,
Muito embora queiramos ser eternos.
Mas eis que um caminho se nos abre:
Dedicarmo-nos ao que nos ultrapassa,
Àquilo que está além de nós:
Os outros, o futuro...
Sim, podemos ser maiores que nós mesmos!
{Texto de alguém qual eu tenho grande consideração, e a quem eu desejo muita sorte e paz...}
Onde você vai, ninguém sabe, ninguém conhece... Dimensão sete! um (re)começo?
---isso está tão bom quanto poderia estar...
E perder o eclipse que se passa em minh’alma? Eu não.. quero estar sã quando voltar a mim mesma, que –confesso!- estou com saudades dessa ‘adorável criança insuportável’ que sou, fui, e não reconheço há tanto tempo...
Imagino que tenha me perdido nalguma volta brusca, nalguma folha já amarelada, nalguma palavra desconhecida...
Curioso: sempre tive medo de me perder nas palavras, que já vi isso acontecer tantas vezes... estancar ali, diante da vírgula, do ponto, da palavrápice, sentindo o pulso frear, sentindo o ar quase faltar...e seguir... deleitando-me com as palavras todas, com cada pedacinho reproduzido ali, como um espelho quebrado...
Tenho medo, dizia, de seguir rápido demais, deixando-me ali, à beira do abismo que tive medo de saltar, diante do êxtase que, alguma vez, preferi contemplar que viver...
Lembro de quantas vezes quase me perdi na Alice, no Pequeno Príncipe, no Peter, nas personagens de Shakespeare. Quantas vezes tive de voltar e, calmamente, puxar pela mão essa criança em que me vi...
Por isso o medo: pois se não me suporto, tão mais odiosa é a solidão em que fico quando me dispenso...
Subtraindo a si mesma. Cuidando das flores, das cores, dos argumentos... Desejava apenas algo leve que esclarecesse suas idéias, como um vôo meio quebrado, com as asas tortas. Sim, se eu fosse um anjo, teria uma asa só. Que afianço: não mereço duas asas. Pois assim eu teria apenas vôos suaves, tranqüilos... e eu já desconheço qualquer idéia de tranqüilidade...
É sair para estar preso
É ficar para estar só
Estou só, estou só estou............
Tem um mar no meio da casa. Peço socorro. Estou me afogando na bagunça que fiz; céus, estou transbordando, dispersando... abstraí...
Sim, duvidam dessa tua face protuberante, desse teu ar soberano ou sei lá o quê que é desafiador e de dar dó – o que te faz tão assustada assim, criança?
Conta pra mim que eu não tenho boca
Emudeci-me há tanto tempo
Tem uma longa data que já não sei o que é isso, menina
Então acredite, pode confiar-me... como os doces de todas as crianças que crêem nos pássaros só porque eles voam
Como nos metais, que tão sólidos, cedem...
Como na entrega do inseto que, sabe, será devorado.
Não tenho pés nem mãos, perdi o apetite; minhas idéias: já não as tenho mais em ordem... ouvi dizer: não regulo bem, sou dispersa demais para te entorpecer com doces palavras, não é para coisas –ou pessoas- como eu, estar tão perto assim do que quero ser.
Devia manter-se mais longe
ou
eu
te
devoro
menina tonta.
Cria vergonha, lava essa cara pálida e dá um jeito nesses olhos, que estão arregalados por demais esta manhã...
O dia vem chegando nessa má vontade que, perdoe, perdoe, mas é de ferrar a vida de qualquer um.
Ah, você está desajeitada... tem de ter ânimo para agüentar a arte, para concretizá-la: viver!...
E quê sabe você, criança? Atente ao café, que vem e sobe. Deixa eu pensar nas coisas em si e você,
Hmmm
Você fica com a confortável tarefa de ser.
"Depois de muito, depois de vagas léguas,
confuso de domínios, incerto de territórios,
acompanhado de pobres esperanças
e companhias infiéis e desconfiados sonhos,
amo o tenaz qua ainda sobrevive nos meus olhos,
ouço no meu coração os meus passos de ginete,
mordo o fogo adormecido e o sal arruinado,
e de noite, de atmosfera escura e luto fugitivo,
aquele que vela na orla dos acampamentos,
o viajor armado de estéreis resistências,
detido entre sombras que crescem e asas que tremem,
me sinto ser, e meu braço de pedra me defende.
Há entre ciências de pranto um altar confuso,
e na minha sessão de entardeceres sem perfume,
nos meus abandonados dormitórios onde mora a lua,
e aranhas de minha propriedade, e destruições que me
são queridas
adoro o meu próprio ser perdido, minha substância
imperfeita,
meu golpe de prata e minha perda eterna.
Ardeu a uva úmida, e a sua água funerária
ainda vacila, ainda reside,
e o patrimônio estéril, e o domicilio traidor.
Quem fez cerimônia de cinzas?
Quem amou o perdido, quem protegeu o último?
O osso do pai, a madeira do barco morto,
e o seu próprio final, a sua mesma fuga,
a sua força triste, o seu deus miserável?
Espreito, assim, o inanimado e o dolente,
e o testemunho estranho que sustento,
com eficiência cruel e escrito em cinzas,
é a forma de esquecimento que prefiro,
o nome que dou à terra, o valor dos meus sonhos,
a quantidade interminável que divido
com os meus olhos de inverno, durante cada dia deste
mundo."
[Pablo Neruda]
Ah! Que me desculpem o azedume, mas hoje eu digo que tanto faz se o café está quente ou frio. Tanto faz o tempo que passa sem ser vivido. Tanto faz as várias cores que enfeitam esses dias que, a meu ver, parecem cinzas. Todas essas cores que passam despercebidas, tanto faz...
Se a luz acabar, se a canção desafinar, se o céu desabar, se a bolsa estourar, se a comida esfriar, se o Deus se atrasar, se a casa queimar, se o bonito enfear, se a voz calar, se o tempo parar... Nada, nada disso me importará!
Pode pegar o ônibus agora, vai criança (e você nem sabe que vai morrer)
Pode comer; vai, mata essa tua fome desvairada que é pura ambição (e você nem sabe que vai morrer)
Pode se vingar; vai, exemplo de justiça (e você nem sabe que desde há tempos está morto).
e você nem sabe que desde há tempos está morto... Vá procurar uma cova, uma soda pra dar fim a essa tua cara que derrete dia após dia, deixando à vista teu vulto negro de inveja, mentira. exalando esse cheiro pútrido dos teus ossos, da tua carne artificial...
Saibam: nada disso me importará hoje.
De nada me vale a vida, de nada me vale a morte. E se parece bobagem, que o seja: é que hoje eu não tô com vontade da vida, visse. Hoje eu não tô para movimentos bruscos nem para barulheira à toa.
Tanto faz o sono, se ele vier; tanto faz a minha vontade de ser e de expressar, de sentir...
Verdade
Mentira
também isso de nada me adianta
O gás vazando, o primeiro colocado no momento do tombo, o erro que acabou dando certo, a vida que causou tantas mortes, a morte que venha... a morte que se dane...
Eu não me importo.
Deixa pra lá a cultura que nos levaram, o dinheiro que é roubado, a corrupção que é conservada, o cinema de mentira, a educação de mentira, a música de mentira, o sistema que é a ordem e o progresso... Ah! minhas estimadas pessoas, meus irmãos e minhas irmãs, meus companheiros: eis-me: massa irrequieta, tomada de loucura, amor, ódio, individualismo, desejo, insatisfação; eis-me: cansada de tanta injustiça, de tantos sonhos que vejo perdidos pelo meu caminho, de todos amores artificiais que são estupidamente cultivados aos montes e que não valem mais que alguns ‘cents’; eis-me: com minhas idéias, meus sonhos, minha esperança, meus pés frios no chão; eis-me: com o controle remoto nas mãos, assistindo às desgraças, rindo da hipocrisia, lamentando a falta de dinheiro, a falta de tempo, a falta de beleza.
Eis-me, pessoa simples que assim como você, meu(minha) caro(a), permaneço esperando, torcendo para que haja vida em outro planeta qualquer, e que este seja menos moderno e menos humano, para que lá eu possa (re)começar; para que lá eu possa me refugiar e (re)aprender a viver!
[16/03/08]

"Por ter sido educadora de parte desse povo,
por ter batalhado sempre pela justiça,
por compactuar com a honestidade,
por primar pela verdade
e por ver este povo já chamado varonil
enveredar pelo caminho da desonra.
Sinto vergonha de mim
por ter feito parte de uma era
que lutou pela democracia,
pela liberdade de ser
e ter que entregar aos meus filhos,
simples e abominavelmente,
a derrota das virtudes pelos vícios,
a ausência da sensatez
no julgamento da verdade,
a negligência com a família,
célula-mater da sociedade,
a demasiada preocupação
com o "eu" feliz a qualquer custo,
buscando a tal "felicidade"
em caminhos eivados de desrespeito
para com o seu próximo.
Tenho vergonha de mim
pela passividade em ouvir,
sem despejar meu verbo,
a tantas desculpas ditadas
pelo orgulho e vaidade,
a tanta falta de humildade
para reconhecer um erro cometido,
a tantos "floreios" para justificar
atos criminosos,
a tanta relutância
em esquecer a antiga posição
de sempre "contestar",
voltar atrás
e mudar o futuro.
'Tenho vergonha de mim
pois faço parte de um povo
que não reconheço,
enveredando por caminhos
que não quero percorrer...
Tenho vergonha da minha impotência,
da minha falta de garra,
das minhas desilusões
e do meu cansaço.
Não tenho para onde ir
pois amo este meu chão,
vibro ao ouvir meu Hino
e jamais usei a minha Bandeira
para enxugar o meu suor
ou enrolar meu corpo
na pecaminosa manifestação de nacionalidade.
Ao lado da vergonha de mim,
tenho tanta pena de ti, povo brasileiro!
"De tanto ver triunfar as nulidades,
de tanto ver prosperar a desonra,
de tanto ver crescer a injustiça,
de tanto ver agigantarem-se os poderes
nas mãos dos maus,
o homem chega a desanimar da virtude,
a rir-se da honra,
a ter vergonha de ser honesto".
[Ruy Barbosa]