segunda-feira, 17 de novembro de 2008


“No mundo realmente reinvertido, o verdadeiro é um momento do falso.”

Guy Debord



Desert Of The Real

“Você deseja saber o que é a Matrix? A Matrix está em todo lugar. À nossa volta... Você pode vê-la quando olha pela janela ou quando liga sua televisão. Você a sente quando vai para o trabalho... Quando vai à igreja... Quando paga seus impostos. É o mundo que foi colocado diante dos seus olhos para que você não visse a verdade. Você é um escravo. Como todo mundo, você nasceu num cativeiro... Nasceu numa prisão que não consegue sentir ou tocar. Uma prisão para sua mente. Infelizmente, é impossível dizer o que é a Matrix. Você tem de ver por si mesmo”.

“O que é Matrix? Matrix é controle. Uma simulação feita pelas máquinas para transformar toda a humanidade nisto aqui”.

"Sei que você está aí.
Eu sinto você agora.
Sei que está com medo.
Está com medo de nós.
Está com medo das mudanças.
Eu não conheço o futuro.
Eu não vim aqui te dizer
como isso vai acabar.
Eu vim aqui te dizer
como vai começar.
Vou desligar este telefone.
E vou mostrar a essas pessoas
o que não quer que elas vejam.
Vou mostrar a elas um mundo...
sem você.
Um mundo sem regras e controle,
sem limites e fronteiras.
Um mundo onde tudo é possível.
Para onde vamos daqui...
é uma escolha que deixo pra você”.


terça-feira, 23 de setembro de 2008

(...)
Ah, deuses, muitas coisas me agitam agora!... Tenho novamente a sensação de que vou explodir, tamanha é a agonia em que me encontro.
Em meu coração, tantas pombas e pássarosindefinidos voejam, batem as asas umas contra as outras, reproduzindo sons que não sei dizer se orquestra ou pura tempestade. Em minh’alma mora um espírito velho; corre também uma menina louca; dança-me uma mulher já muito bem feita, nada satisfeita com a boa vida que Deus lhe deu... cantam em mim todos os mendigos, excepcionalmente em noites frias; cantam, ainda, todos os pobres de espírito.

(...) Tentam traduzir-me o louco, o palhaço, a morte e o Deus...
O louco, ah, bem que tentou, pobre! Mas sumiu... abstraiu-se! Ou sabe-se lá que diabos houve com o homem. Soube apenas que ele andou muito cismado com o fato d’eu me tachar por louca. Nalguns devaneios, descobriu que ao tentar compreender minha loucura, quase alcançou a lucidez; capaz que por medo de alcançá-la, evadiu-se!

O palhaço foi homem muito corajoso, verdade . Problema foi que o fulano, ao se aproximar d’mim, em mau momento, diga-se de passagem, surpreendeu-se ao reconhecer as feras que trago cá trancafiadas... Tentou fazer brotar-me um sorriso no rosto, o que pr’um homem como tal até foi muito, e reconheço o seu esforço. Mas há de compreender, Sr. Palhaço(se é que já não o compreendeu , por contra-gosto) que essa tristeza qual carrego n’alma é muita visse?! Ai, são dores tamanhas essas que me sufocam e apertam o coração...


A Morte, já amiga de longa data (?), chegou-se como quem é de casa. Cá estou eu, e já sinto tantos negros anjos a voejarem-me, e no mesmo tempo, um vazio indizível, que imagino ser a hora de se me levarem, dona Morte. Veja bem: quê mais posso eu fazer? Eu nem sementes tenho para deixar; que me perdoem os meus familiares e amigos, amo-lhes tanto.............. mas tratemos logo de dar fim a isso, dona Morte, vamos embora desse mundo louco! Valei-me pai e mãe, eu só não contava com a sensibilidade da Morte, que se recusa a levar-me. Diz ela que prefere conter-se e fitar meus olhos, quais, diz, “refletem-na”...


E o Deus é o único qual eu não esperava grande s feitos. O Deus não me vem. Não vem porque desistiu...e estamos acertados, eu o perdôo por isso, apenas desconfio que ele não me perdoe, e invejo-o por ser tão justo. Ah pai, estás muito certo. Ainda assim peço que me perdoe os modos tão crus; mas é estranho sentir-se tão incômodo consigo? Sou impossível e não me suporto; quê é que se faz?

Deus, fazei com que a música atravesse essa alma em tensão como a luz do sol o faz; pede que saiam todas as criaturas, palavras, sons, figuras que se me fazem moradia; o que desejo agora é si lên c i o...
Fazei com que os surdos compreendam-me as expressões.
Fazei com que os mudos colem-se às cores de meus cabelos, de meus olhos, de minha pele e minhas idéiascarmesin, e através delas possam expor suas necessidades...
Fazei com que os cegos ouçam-me, orquestra, revoada de pássaros, silêncio, apocalipse... fazei com que estes sintam-se a vontade pai, pois inimigos eu tenho por demais... e ai meudeus, se não for pedir muito, dai jeito nessa criatura que sou; peço que regresses a mim e largo-me, então; dê cá um jeitinho, que eu não agüento, eu não me agüento mais...

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

In luto for Sir. Rick, a icon, a star...



"And with these words I can see
Clear through the clouds that covered me
Just give it time then speak my name
Now we can hear ourselves again..."
[ Rick Wright - "Wearing the inside out" ]

sábado, 13 de setembro de 2008

(...) Surpreendo-me com tamanha teimosia! Teimosia, sim, dessa mão que insiste em escrever. E como escrevo por pura teimosia –ou sabe-se lá quê-, rabisco aqui minhas tortas palavras, como quem sangra, como quem chora, ri, ou lamenta com alguma ironia, alegria ou maldade qualquer; só assim é que sei escrever.
E por mais rabiscos que venham, sinto algo a me apertar. Lamento, sim, essa amargura que me consome. Sinto-me como a pluma que pesa sobre todos nós, humanos demais; humanos demais! (?)
Ah! Fadigamo-nos tão rapidamente; estamos exauridos pela vida que rompe, pelo tempo que corre e, certamente, perdemo-nos... Quê há com essa gente que parece já não querer viver?

(...) Sinto,
Sou um menino de olhos arregalados, com as mãos e o nariz encostados a uma grande vitrina fria, e uma tempestade flui lá fora; outra cá em mim. Mina sina é desejar sempre aquilo que não se pode tocar, ou que simplesmente não pode ser alcançado. Estou perdido. Absolutamente perdido e, para total surpresa, saibam-me: despreocupado! Não há o que me complete neste mundo, sou uma criatura sem par, e de nada me vale ser assim tão faminto da vida. No entanto, seria inútil estancar...
Sou por demais selvagem, louco e impulsivo para aceitar-me estancado.
O que sou é tão (in)descritível como (in)tocável. Pedras, pérolas, diamantes... nada há de mais concreto que minh’alma. Incansável, vôo entre os infernos; os céus eu crio; e as selvas são meus jardins. E quando calma, sou César, ainda que nada mais eu tenha de meu, senão essa sede sem fim.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

O sentimento do irreparável gelou-me de novo. E eu compreendi que não podia suportar a idéia de nunca mais escutar esse riso. Ele era para mim como uma fonte no deserto.

- Meu bem, eu quero ainda escutar o teu riso...

Mas ele me disse:

- Faz um ano esta noite. Minha estrela se achará justamente em cima do lugar onde eu caí o ano passado...

- Meu bem, não será um sonho mau essa história d serpente, de encontro marcado, de estrela?

Mas não respondeu à minha pergunta. E disse:

- O que é importante, a gente não vê...

- A gente não vê...

- Será como a flor. Se tu amas uma flor que se acha numa estrela, é doce, de noite, olhar o céu. Todas as estrelas estão floridas.

- Todas as estrelas estão floridas.

- Será como a água. Aquela que me deste parecia música, por causa da roldana e da corda... Lembras-te como era boa?

- Lembro-me...

- Tu olharás, de noite, as estrelas. Onde eu moro é muito pequeno, para que eu possa te mostrar onde se encontra a minha. É melhor assim, Minha estrela será então qualquer das estrelas. Gostarás de olhar todas elas... Serão, todas, tuas amigas. E depois, eu vou fazer-te um presente...

Ele riu outra vez.

- Ah! meu pedacinho de gente, meu amor, como eu gosto de ouvir esse riso!

- Pois é ele o meu presente... será como a água...

- Que queres dizer?

- As pessoas têm estrelas que não são as mesmas. para uns, que viajam, as estrelas são guias. Para outros, elas não passam de pequenas luzes. Para outros, os sábios, são problemas. Para o meu negociante, eram ouro. mas todas essas estrelas se calam. Tu, porém, terás estrelas como ninguém...

- Que queres dizer?

- Quando olhares o céu de noite, porque habitarei uma delas, porque numa delas estarei rindo, então será como se todas as estrelas te rissem! E tu terás estrelas que sabem rir!

E ele riu mais uma vez.

- E quando te houveres consolado (a gente sempre se consola), tu te sentirás contente por me teres conhecido. Tu serás sempre meu amigo. Terás vontade de rir comigo. E abrirás às vezes a janela à toa, por gosto... E teus amigos ficarão espantados de ouvir-te rir olhando o céu. Tu explicarás então: "Sim, as estrelas, elas sempre me fazem rir!" E eles te julgarão maluco. Será uma peça que te prego...

E riu de novo.

- Será como se eu te houvesse dado, em vez de estrelas, montões de guizos que riem...

terça-feira, 29 de julho de 2008

"Tão longa a jornada,
E a gente cai, de repente,
No abismo do nada."


[Helena Kolody]

sábado, 26 de julho de 2008

O preço da carne

Dagomir Marquezi

Chineses costumam encarar qualquer coisa que se mova como um alimento à sua disposição. Eles consideram o animal um mecanismo, um objeto, cuja dor e sofrimento não nos dizem respeito. Ironicamente, os piores exemplos de maus tratos acontecem na mesma Ásia onde nasceu o budismo – a mais benevolente e avançada religião do mundo no trato com os animais.

Nos tristemente famosos "mercados de vida selvagem" asiáticos há de tudo. Mamíferos, répteis, insetos, batráquios, tudo vai para gaiolas apertadas e lotadas sem água nem comida. Qualquer foto desses mercados é um permanente festival de sangue, urina e fezes. Há mais do que cheiro ruim no ar: existe medo. E vírus de diferentes espécies novas se combinando uns com os outros.

As imagens mais chocantes registram o que esses mercados destinam aos cães. Os mesmos cães que aqui viram membros da família, ajudam cegos ou orientam equipes de salvamento. Lá, cachorros são comida. E não se deixe enganar: esses mercados chineses não existem para "matar a fome do povo". Chineses pobres comem frango e peixe. Os cães são "iguarias" caras, assim como gatos, escorpiões, cobras, enguias etc.

Eu tive a chance de ver fotos e vídeos desses mercados. Os cozinheiros acreditam que a adrenalina no sangue dos cães amacia a carne. Quanto mais sofrimento, mais apetitoso o prato. Em nome dessa carne macia, a palavra de ordem é torturar os cães até a morte. Eu já vi a foto de um pastor alemão sendo enforcado na viga de uma cozinha, sendo puxado pelos pés. Eu já testemunhei um vira-latas com as patas dianteiras amarradas para trás do corpo e desisti de imaginar o tamanho de sua dor. Assisti ao vídeo de um cão magrinho que foi mergulhado em água fervendo, retirado, teve sua pele inteirinha arrancada e ainda olhava a câmera, tremendo junto à panela onde foi cozido em vida.

A pergunta básica é: nós, humanos, temos direito a isso? Quem nos deu esse direito? Temos o direito de jogar uma lagosta viva na água fervente? Temos o direito de comer um peixe fatiado ainda vivo no seu prato num restaurante japonês? Temos o direito de prender bezerros em lugares escuros, imobilizados por toda sua curta vida, por um vitelo? Nosso paladar é tão importante assim na ordem das coisas? Um sabor diferente em nossas bocas justifica tudo?

A questão ultrapassa a esfera da ética e da civilidade. A Sars nasce no chão imundo dos mercados chineses. A doença da vaca louca – permanente ameaça na nossa pátria do churrasco – surgiu quando obrigamos o gado a se canibalizar. O terrível ebola se espalha com cada homem africano que devora nossos primos biológicos, gorilas e chimpanzés. Vírus mutantes saltam do sangue de aves para o dos homens sem defesas naturais. Segundo a revista inglesa The Economist, nada menos que 60% das doenças humanas surgidas nos últimos 20 anos têm origem em outras espécies animais. Tony McMichael, pesquisador da Universidade Nacional de Austrália, é bastante claro: "Vivemos num mundo de micróbios. Precisamos ser um pouco mais espertos no jeito como manejamos o mundo ao nosso redor."

Mercados chineses e churrascos africanos parecem fenômenos distantes. Mas o brasileiro continua dependendo demais de alimentação animal. Temos uma churrascaria por quarteirão, e numa cidade de 12 milhões de habitantes, como São Paulo, contam-se nos dedos os restaurantes vegetarianos. E ainda temos um lobby querendo ampliar a oferta de animais nas geladeiras: avestruzes, capivaras, jacarés, tudo criado em cativeiro com carimbo do Ibama. A cada nova espécie consumida pelo homem, mais uma mistura de vírus – algumas combinações inofensivas, outras não.

Para tentar controlar essas doenças, cometemos mais brutalidade: enterramos milhões de aves vivas, afogamos gatos selvagens em piscinas de desinfetante. Provocamos o desastre e massacramos as vítimas. Temos um caminho inteligente: racionalizar, humanizar e diminuir cada vez mais o consumo de animais. Ou podemos continuar o banho de sangue. Aí, todos nós pagaremos o preço.

Quando uma borboleta bate as asas na Europa, pode iniciar um furacão no oceano Pacífico. A Sars começou em mercados chineses e chegou ao Canadá. A gripe aviária já se espalhou por diversos países asiáticos e ameaça lugares distantes como o Paquistão e a Itália. Num mundo de vôos diretos, os gritos desesperados de um cachorro chinês podem chegar um dia ao Brasil por meio de alguma nova e tenebrosa sigla.