terça-feira, 29 de julho de 2008
sábado, 26 de julho de 2008
O preço da carne
Dagomir Marquezi
Chineses costumam encarar qualquer coisa que se mova como um alimento à sua disposição. Eles consideram o animal um mecanismo, um objeto, cuja dor e sofrimento não nos dizem respeito. Ironicamente, os piores exemplos de maus tratos acontecem na mesma Ásia onde nasceu o budismo – a mais benevolente e avançada religião do mundo no trato com os animais.
Nos tristemente famosos "mercados de vida selvagem" asiáticos há de tudo. Mamíferos, répteis, insetos, batráquios, tudo vai para gaiolas apertadas e lotadas sem água nem comida. Qualquer foto desses mercados é um permanente festival de sangue, urina e fezes. Há mais do que cheiro ruim no ar: existe medo. E vírus de diferentes espécies novas se combinando uns com os outros.
As imagens mais chocantes registram o que esses mercados destinam aos cães. Os mesmos cães que aqui viram membros da família, ajudam cegos ou orientam equipes de salvamento. Lá, cachorros são comida. E não se deixe enganar: esses mercados chineses não existem para "matar a fome do povo". Chineses pobres comem frango e peixe. Os cães são "iguarias" caras, assim como gatos, escorpiões, cobras, enguias etc.
Eu tive a chance de ver fotos e vídeos desses mercados. Os cozinheiros acreditam que a adrenalina no sangue dos cães amacia a carne. Quanto mais sofrimento, mais apetitoso o prato. Em nome dessa carne macia, a palavra de ordem é torturar os cães até a morte. Eu já vi a foto de um pastor alemão sendo enforcado na viga de uma cozinha, sendo puxado pelos pés. Eu já testemunhei um vira-latas com as patas dianteiras amarradas para trás do corpo e desisti de imaginar o tamanho de sua dor. Assisti ao vídeo de um cão magrinho que foi mergulhado em água fervendo, retirado, teve sua pele inteirinha arrancada e ainda olhava a câmera, tremendo junto à panela onde foi cozido em vida.
A pergunta básica é: nós, humanos, temos direito a isso? Quem nos deu esse direito? Temos o direito de jogar uma lagosta viva na água fervente? Temos o direito de comer um peixe fatiado ainda vivo no seu prato num restaurante japonês? Temos o direito de prender bezerros em lugares escuros, imobilizados por toda sua curta vida, por um vitelo? Nosso paladar é tão importante assim na ordem das coisas? Um sabor diferente em nossas bocas justifica tudo?
A questão ultrapassa a esfera da ética e da civilidade. A Sars nasce no chão imundo dos mercados chineses. A doença da vaca louca – permanente ameaça na nossa pátria do churrasco – surgiu quando obrigamos o gado a se canibalizar. O terrível ebola se espalha com cada homem africano que devora nossos primos biológicos, gorilas e chimpanzés. Vírus mutantes saltam do sangue de aves para o dos homens sem defesas naturais. Segundo a revista inglesa The Economist, nada menos que 60% das doenças humanas surgidas nos últimos 20 anos têm origem em outras espécies animais. Tony McMichael, pesquisador da Universidade Nacional de Austrália, é bastante claro: "Vivemos num mundo de micróbios. Precisamos ser um pouco mais espertos no jeito como manejamos o mundo ao nosso redor."
Mercados chineses e churrascos africanos parecem fenômenos distantes. Mas o brasileiro continua dependendo demais de alimentação animal. Temos uma churrascaria por quarteirão, e numa cidade de 12 milhões de habitantes, como São Paulo, contam-se nos dedos os restaurantes vegetarianos. E ainda temos um lobby querendo ampliar a oferta de animais nas geladeiras: avestruzes, capivaras, jacarés, tudo criado em cativeiro com carimbo do Ibama. A cada nova espécie consumida pelo homem, mais uma mistura de vírus – algumas combinações inofensivas, outras não.
Para tentar controlar essas doenças, cometemos mais brutalidade: enterramos milhões de aves vivas, afogamos gatos selvagens em piscinas de desinfetante. Provocamos o desastre e massacramos as vítimas. Temos um caminho inteligente: racionalizar, humanizar e diminuir cada vez mais o consumo de animais. Ou podemos continuar o banho de sangue. Aí, todos nós pagaremos o preço.
Quando uma borboleta bate as asas na Europa, pode iniciar um furacão no oceano Pacífico. A Sars começou em mercados chineses e chegou ao Canadá. A gripe aviária já se espalhou por diversos países asiáticos e ameaça lugares distantes como o Paquistão e a Itália. Num mundo de vôos diretos, os gritos desesperados de um cachorro chinês podem chegar um dia ao Brasil por meio de alguma nova e tenebrosa sigla.
domingo, 6 de julho de 2008
Frente a esta folha, eu sou um espasmo.
Imagino tudo o que poderia ser escrito aqui, as várias maneiras quais se poderia escrever. E se escrevo agora, é certo: já nada sairá como imaginei, porque tudo foi pensado antes, e pensei com tamanha precisão que imagino se Deus estaria sussurrando ao meu ouvido. (...) Mas não, não foi Deus, que se fosse eu saberia, oh sim, eu saberia e reproduziria perfeitamente a ‘mensagem divina’. Está certo, não foi o Deus.
Imagino quantos desenhos, quantos rabiscos, quantas cores eu poderia espalhar pela folha. Estou sendo devorada; não sei se pela folha, ou se pelo Deus que me falta, ou se por mim...
Sei, deveria me doar mais a isto. Deveria sentar aqui nua e deixar que a folha me vestisse, que ela me tomasse e me fizesse a palavraprimeira; então brotariam outras, miúdas, confusas de tudo, e ocupariam cada qual o seu devido lugar na folha que sou.
Deveria me doar sem receio, mas que posso fazer? ...Deixo-me às interpretações...
É como ter a vontade de viver, mas não a habilidade. Teria eu a criatividade, a verdade; o que me falta é a habilidade. Sim, os meios é que me cansam. Os meios me apavoram, me deixam frente a mim, e quando vejo esses grandes olhos da folha, juro, não sei quê fazer para supri-la.
As palavras são mais que os meios. E eu as necessito como se necessita de água e de alimento. A palavra é meu alimento. (“O que me nutre, me destrói.” Nietzsche) Eu as desejo como quem chama pela vida, posto que já me perco de tudo, morro e renasço através das palavras. Eu as preciso porque preciso de um pouco mais de mim. Sou meu inferno, clarice. Eu me reconheço me julgo e me condeno; meus pecados, não os admito. Eu sou a mão que me segura, prendendo a energia que no lançar-se ao mundo, às pessoas, às coisas, explodiria tudo o que há.
E agora temo que seja tarde. Eu preciso de paz. Peço que as palavras não me fujam, estou tão esgotada. Estou exausta.
Nalgum momento me perdi como de costume. Então isso deve ter acontecido há tempos, e quando penso que me perdi novamente, em verdade, o que perdi foi a metade que eu havia encontrado. Ou seria a metade quem me encontrara?
Não tenho mais o jeito de desmanchar as coisas sobre a folha, como quem pinta uma tela em branco. O desafio é o mesmo; apenas o modo de navegar muda. Sinto falta da maneira como eu tocava a folha, e olhava-a, pura, e cheirava-a, pura, e sentia-a... pura de tudo...
Imagino o que a folha pode ser... Eu poderia amassá-la, arremessá-la ao tempo, vaga, solta, livre e livre por ser pura, livre por estar pronta para ser dominada, e tão-somente.
Sou envolta por um manto, já não posso encarar a branca folha.
Perdemo-nos.
Envolvem-me, crua, aços frios e rígidos, aos quais eu não sei dar nomes.
Mais uma vez eu me retiro sem me doar a você. Mais uma vez eu vou e deixo-a só.
Eis minha sentença, qual aplico a você como aplico também a mim: condeno você a ser somente o que é, e te condeno a conviver com isso eternamente... Estará livre de tudo, leve, pesada pelo tempo que cai; estará limpa e indiferente a tudo o mais. Penetra a ti mesma, domina a ti mesma; conhece-te, julga-te. Saberá qual é a agonia que me consome. Saberás como é ir pelo mundo, sugando o extrato, sem saber reproduzi-lo. Embebedar-se-á com o vinho da vida e jogará a garrafa vazia ao mundo, sem dizer qual foi o gosto, sem fazer compreender o quanto isso te valeu.
Vou como quem deixa para traz tudo o que já se tem. E nessa pobre riqueza das coisas quais eu não preciso e, tendo-as, não me bastam, não sei se suporto tudo o que me é concedido.
Meço o meu comprimento, e o espírito, noto, não tem medida.
...Então estender as mãos, como quem pede mais, massa sedenta; e enquanto todos me crêem assim, todo ato que faço é doação...
